sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

Perfumes de Poesias

O tempo passa...

O tempo se renova...
Um tanto lento;
A esperança ainda no relento.
Encanta-se com o vento
Tudo faz parte da prova.
Nada vale a revolta.
O querer da volta;
O tempo se renova...
Cada passo
Embaraço...
As perguntas, ganhando espaço.
Sem respostas, no silencio vazio.
Sonhar e querer sem sacio.
Mas o tempo se renova...
Sem pensar se o coração aprova.
Apenas passa...
No silencio que por vezes abraça.
Num consolo mudo e só.
Sem resposta, nem dó."

Claudia Salles.

.¸¸.✻´´¯`•

mágico

Segredos

“Há momentos na vida em que sentimos tanto a falta de alguém que o que mais queremos é tirar esta pessoa de nossos sonhos e abraçá-la. Sonhe com aquilo que você quiser. Seja o que você quer ser, porque você possui apenas uma vida e nela só se tem uma chance de fazer aquilo que se quer. Tenha felicidade bastante para fazê-la doce. Dificuldades para fazê-la forte. Tristeza para fazê-la humana. E esperança suficiente para fazê-la feliz. As pessoas mais felizes não têm as melhores coisas. Elas sabem fazer o melhor das oportunidades que aparecem em seus caminhos. A felicidade aparece para aqueles que choram. Para aqueles que se machucam. Para aqueles que buscam e tentam sempre. E para aqueles que reconhecem a importância das pessoas que passam por suas vidas. O futuro mais brilhante é baseado num passado intensamente vivido. Você só terá sucesso na vida quando perdoar os erros e as decepções do passado. A vida é curta, mas as emoções que podemos deixar duram uma eternidade. A vida não é de se brincar porque um belo dia se morre”.

Ternura Infinda. & Desabrochar de Sonhos



"Eu gosto do que me inquieta 
sair da rotina, dos trilhos, 
perder o fôlego, a pose, o rumo, o sono
tenho preguiça do sossego, ele me deixa chata.
Quietude só na alma, meu corpo precisa ouvir meus vasos sanguíneos."

(Renata Fagundes)

Borboletando na Alma e no Coração


"Somos rosas, mas temos lá nossos espinhos. E mesmo com a aparente fragilidade, nossas raízes se mostram fortes. Mesmo diante da delicadeza de nossas pétalas, que cansadas, vez em outra, se perdem pelo chão, renovam-se. Renovam-se sempre que a vida pede. E ela pede hoje, amanhã, depois. E depois de novo. É um ciclo. Renovar-se não é ruim, é renascer. É dormir algum tempo depois de uma luta e acordar como quem vem ao mundo pela primeira vez, com olhos puros, como de uma criança. É olhar com esperança e lutar com determinação. É nunca desistir e ver a vida como ela é, mesmo diante das dificuldades: linda, magnífica, colorida e alegre."
___________Aghata Paredes

Bom dia.!!!

Uma gesto, um sorriso, uma palavra amiga... podem salvar o dia de alguém.
Bom dia.!!!

Ternura Infinda.



"A receita é infalível: Ocupe-se com que lhe causa encantamento. E tudo a que chamamos de problemas fica pequeno, perto do fascínio daquilo que chamamos de vida."

__ Mel Costa.

Árvores da vida


 ... E tem aquele amor saudades... infância... aquele que não sobreviveu ao sonhos, aos planos...
Que não saiu de um olhar apenas... não teve forças... mas que foi amor.
Amor primeiro amor... que guardo na lembrança... que marcou... e ficou... na saudades.

Luandrade

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

mentaliza

"O que você tem todo mundo pode ter. Mas o que você é ninguém pode ser"

Extremos da Paixão - Caio F Abreu

"Não, meu bem, não adianta bancar o distante lá vem o amor nos dilacerar de novo..."

Andei pensando coisas. O que é raro, dirão os irônicos. Ou "o que foi?" - perguntariam os complacentes. Para estes últimos, quem sabe, escrevo. E repito: andei pensando coisas sobre amor, essa palavra sagrada. O que mais me deteve, do que pensei, era assim: a perda do amor é igual à perda da morte. Só que dói mais. Quando morre alguém que você ama, você se dói inteiro (a) mas a morte é inevitável, portanto normal. Quando você perde alguém que você ama, e esse amor - essa pessoa - continua vivo (a), há então uma morte anormal. O NUNCA MAIS de não ter quem se ama torna-se tão irremediável quanto não ter NUNCA MAIS quem morreu. E dói mais fundo- porque se poderia ter, já que está vivo (a). Mas não se tem, nem se terá, quando o fim do amor é: NEVER.
Pensando nisso, pensei um pouco depois em Boy George: meu-amor-me-abandonou-e-sem-ele-eu-nao-vivo-então-quero-morrer-drogado. Lembrei de John Hincley Jr., apaixonado por Jodie Foster, e que escreveu a ela, em 1981: "Se você não me amar, eu matarei o presidente". E deu um tiro em Ronald Regan. A frase de Hincley é a mais significativa frase de amor do século XX. A atitude de Boy George - se não houver algo de publicitário nisso - é a mais linda atitude de amor do século XX. Penso em Werther, de Goethe. E acho lindo.
No século XX não se ama. Ninguém quer ninguém. Amar é out, é babaca, é careta. Embora persistam essas estranhas fronteiras entre paixão e loucura, entre paixão e suicídio. Não compreendo como querer o outro possa tornar-se mais forte do que querer a si próprio. Não compreendo como querer o outro possa pintar como saída de nossa solidão fatal. Mentira:compreendo sim. Mesmo consciente de que nasci sozinho do útero de minha mãe,berrando de pavor para o mundo insano, e que embarcarei sozinho num caixão rumo a sei lá o quê, além do pó. O que ou quem cruzo entre esses dois portos gelados da solidão é mera viagem: véu de maya, ilusão, passatempo. E exigimos o terno do perecível, loucos.
Depois, pensei também em Adèle Hugo, filha de Victor Hugo. A Adèle H. de François Truffaut, vivida por Isabelle Adjani. Adèle apaixonou-se por um homem. Ele não a queria. Ela o seguiu aos Estados Unidos, ao Caribe, escrevendo cartas jamais respondidas, rastejando por amor. Enlouqueceu mendigando a atenção dele. Certo dia, em Barbados, esbarraram na rua. Ele a olhou. Ela, louca de amor por ele, não o reconheceu. Ele havia deixado de ser ele: transformara-se em símbolos em face nem corpo da paixão e da loucura dela. Não era mais ele: ela amava alguém que não existia mais, objetivamente. Existia somente dentro dela. Adèle morreu no hospício, escrevendo cartas (a ele: "É para você, para você que eu escrevo" - dizia Ana C.) numa língua que, até hoje, ninguém conseguiu decifrar.
Andei pensando em Adèle H., em Boy George e em John Hincley Jr. Andei pensando nesses extremos da paixão, quando te amo tanto e tão além do meu ego que - se você não me ama: eu enlouqueço, eu me suicido com heroína ou eu mato o presidente. Me veio um fundo desprezo pela minha/nossa dor mediana, pela minha/nossa rejeição amorosa desempenhando papéis tipo sou-forte-seguro-essa-sou-mais-eu. Que imensa miséria o grande amor - depois do não, depois do fim - reduzir-se a duas ou três frases frias ou sarcásticas. Num bar qualquer, numa esquina da vida.
Ai que dor: que dor sentida e portuguesa de Fernando Pessoa - muito mais sábio -, que nunca caiu nessas ciladas. Pois como já dizia Drummond, "o amor car(o,a,) colega esse não consola nunca de núncaras". E apesar de tudo eu penso sim, eu digo sim, eu quero Sins.

O Estado de S. Paulo, 8/7/1986

Boa felicidade

Saúde, bom ânimo, muitas surpresas lindas, serenidade, coração feliz, espírito tranquilo, sorrisos e risos sinceros sem medida ... tudo de maravilhoso desejo para sua vida hoje ... e sempre!


Desabrochar de Sonhos



Gosto das coisas simples, de gestos sinceros e coração aberto... Gosto de gente que me compreende, que vê meus defeitos mas me ama de todo jeito...

_Sirlei L. Passolongo_

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

the moments




Eu não entendo, apenas sinto. 

Tenho medo de um dia entender, e deixar de sentir.

Caio F Abreu

A Vera Antoun

01Set0
 
London, London — insone quase manhã de abril [de 1974]

Desisti enfim de tentar dormir, abri as cortinas para mais um dia cinzento de
primavera (primavera inglesa, é claro), sentei na mesa e fico olhando a paisagem de
casas semidemolidas e chaminés até onde o olho alcança. Fumei o último cigarro
(Number Six), sinto fome — não tem nada aberto a essa hora e, mesmo, só tenho
80 pences que precisam durar até amanhã. Homero saiu para trabalhar, me deixou
o relógio. Vezenquando um ventinho entra pelas frestas da janela e faz musiquinha
nos sinos chineses que dependurei no teto. As tulipas que roubei do parque de
Swiss Cottage desbundaram definitivamente — só ficaram duas amarelas,
levemente bodiadas.
Tua carta chegou ontem. Minuano é um vento que só existe no Rio Grande
do Sul e que, dizem, sopra nos Andes. Em Porto Alegre só tem raramente, mas em
Santiago do Boqueirão, onde nasci, tinha sempre. Zune fininho nas portas e janelas,
corta os lábios e atravessa qualquer roupa. Minuano é cortante, impiedoso, gelado.
Tenho medo de te ferir. Mas acho que precisamos “falar seriamente”.
Desculpe, mas acho que sim, sem fantasia, sem comicidade. Me pergunto sempre
se você não teceu em volta de mim uma porção de coisas irreais — se você não
estará projetando em mim qualquer coisa como um príncipe encantado —
esperando a minha volta como quem espera a salvação. Você diz que me ama. Eu
digo que você não pode amar a uma pessoa com quem transou há três anos atrás, e
que viu rapidamente num aeroporto, e que escreveu e recebeu cartas durante um
ano. Verinha, sei lá, amor a gente transa cara a cara, corpo a corpo. Não sei se te
amo. Saberei isso quando a gente se encontrar outra vez e começar a transar, e der
certo ou não.
Você fala em casar. Algum tempo atrás falei nisso talvez por romantismo,
por solidão ou brincadeira, ou mesmo seriamente. Não quero casar. Casamento é
uma coisa completamente estúpida — e sua explicação de comprar a aprovação das
famílias não tem o menor sentido. Se você me amar e eu te amar, não precisamos
da aprovação de ninguém para ficar juntos, como também não precisamos assinar
nenhum papel ou aceitar qualquer espécie de jogo. Não acredito que maus fluidos,
por mais fortes que sejam, consigam destruir um amor bonito, limpo. E um filho
só teria problemas com o fato dos pais não serem casados apenas no caso de ter
sido educado muito caretamente — o que não acontecerá se um dia eu tiver um
filho.
Há também uma outra coisa muito séria que você não pesou bem até agora.
E sou muito franco com você: tenho um componente homossexual muito forte.
Até hoje, minhas relações heterossexuais sempre foram, sei lá, meio idiotas —
porque, realmente, afora você e uma outra garota gaúcha, M., o corpo feminino é
uma coisa que não consegue me entusiasmar. Nunca fui exclusivamente
homossexual ou exclusivamente heterossexual — creio que nunca serei. Mas
também me pergunto até que ponto você REALMENTE poderia aceitar isso em
mim. Pense com você mesma e procure ser muito honesta na resposta.
Verinha, estou mesmo voltando e tudo começa a ficar muito real. Não posso
mentir a você, não quero, sei lá, que você entre numa errada comigo. Que você se
machuque ou, como diziam minhas tias quando eu era guri, “tenha uma desilusão”.
Mas a verdade é que ainda não quero me prender a nada, a nenhum lugar, a
ninguém — a não ser que isso pinte com muita força, o que é impossível de
acontecer por carta. Além disso, sou terrivelmente instável e entender as minhas
reações é coisa que às vezes nem eu mesmo consigo.
Não posso mentir a você, não quero. Mas por favor não fantasie, menina,
não seja demasiado adolescente. Como eu te escrevi várias vezes, é no nosso
encontro, cara a cara, olho a olho, que as coisas vão se definir. Veja se você
consegue separar o sonho da realidade. Anel, por exemplo, é um sonho. E um
sonho que trago comigo há muito tempo e que comuniquei a você — e que não é
hora ainda de ser realidade, porque não tenho absolutamente nada além da minha
cuca — você me entende? Minha profissão é essa coisa absurda de escritor, que
não dá dinheiro nenhum, estou sempre recomeçando e recomeçando e
recomeçando. É muito duro. Ontem por exemplo só tomei um café — hoje vai ser
o mesmo. Eu agüento — mas um bebê, Vera?
Menina, menina, tenho uma ternura enorme por você — e para mim é muito
difícil isolar essa ternura da razão, quando te escrevo. Como fiz agora. Talvez tenha
te parecido duro ou demasiado frio. Mas acho, honestamente, que você não deve se
arriscar a ter uma tremenda decepção, depois de um ano inteiro de sonhos. Nós
vamos nos ver, nós vamos conversar, sair juntos, provavelmente nos tocar — e de
repente tudo pode realmente ser. Ou não. Mas de jeito nenhum quero, sei lá, ser
irresponsável ou não medir as conseqüências dum negócio que pode ser muito
sério.
(Não agüento de fome e de vontade de fumar. Volto já).
Voltei. São 8.30, comi um sanduíche no grego, comprei cigarros no hindu e
voltei cantando em espanhol (Perfídia). Londres é assim.
Sabe que eu tô muito velho? Outro dia me deram 30 anos. A minha cara tá
cheia de marca, ruguinhas. O meu olho caiu ainda mais e tem uma expressão de
cansaço absoluto. O cabelo, que era minha maior “arma”, caiu muito, tem entradas
incríveis e nenhum brilho. Rio pouco e quase não falo. Pense também nisso, tire a
sua cabecinha da lua: você não vai encontrar nenhum modelo de beleza na sua
frente. Europa marcou fundo, e aquele menino cheio de vida e acreditando em
tudo que você conheceu em 71 ficou perdido entre pilhas de pratos e panelas sujas
num restaurante sueco, no verão passado. Já não sou o mesmo, como você
também não é. Endureci um pouco, desacreditei muito das coisas, sobretudo das
pessoas e suas boas intenções. Dar um rolé em cima disso não vai ser nada fácil. E
as marcas ficarão — tatuagens.
Quero muito te amar e me encontrar contigo. Mas não sei se conseguiremos
— e tenho medo.
Atravessando duas semanas muito duras. A escola onde trabalho como
modelo entrou em férias — e só reabre segunda, dia 22. Resultado: fiquei sem
emprego. Descolei umas limpezas na casa dum ator, mas dá pouquíssimo e no fim
de semana gastei tudo num passeio péssimo à ilha de Wight. Provavelmente irei lá
pelo dia 15 de maio. Quero ir com o Sol ainda em Touro, tenho bode de Gêmeos.
Provavelmente também não poderei ficar no Rio. Não consigo economizar nada.
Além disso, vou chegar muito horroroso, branco deste inverno que não acaba (oito
meses) e exausto. Meu plano é passar um mês no Sul, tratar do meu livro e mil
coisas, também descolar dinheiro para poder ir ao Rio + tarde. Hilda — aquela
minha amiga escritora de Campinas — mandou dizer que talvez possa me dar uma
for$a no fim de maio. Então talvez a gente possa se ver em junho (julho, nas tuas
férias — queria muito ir à Bahia contigo).
Tenho escrito. Voltou o demônio (ou o anjo, não sei). Da peça, já tenho uma
meia-hora escrita e o resto na cuca. Estou gostando, os diálogos estão ficando
bons. Por enquanto o título é Vamos fazer uma festa enquanto o dia nao chega?. É muito
amarga, eu acho, talvez demais. Sinto uma falta medonha da minha máquina de
escrever — acho que é o que mais amo no mundo.
Intento uma macrobiótica meio fajuta — cortei carne, açúcar, gorduras.
Tenho comido quase só arroz integral, vegetais e frutas. Queijo e pão. Não
encontro ban-chá em Londres. Só chá de Mu, que é meio enjoativo. Mas tenho um
vício realmente péssimo: latinhas de coca-cola. Não consigo resistir.
Não sei se te falei de Serginho. Creio que sim. Ele foi preso de novo, está
incomunicável, vai ficar 2 meses, depois será deportado para o Brasil. Um dia te
falarei muito sobre ele. Procure ouvir Angie com Mick Jagger. As pessoas estão indo
embora. Amsterdam, Paris, Suécia, Escócia. Augusto, Orlando, Lize, Zé, Rogério,
Paulo Afonso, Débora. É triste, porque chega ao fim mais um ciclo que não se
repetirá — mas é bom porque todos estão tão machucados, tao...
(9h. Esquento panelões de água — a água quente pifou — pra tomar banho
e ir ao dentista às 11h).
Do outro lado da rua passa um garoto gordo com casaco verde. Acho que os
garotos gordos devem sofrer muito.
Leio Alice’s adventures in Wonderland — também conhecido como Alice no País
das Maravilhas — em inglês — uma batalha vencida pouco a pouco. Homero rouba
porradas de livros sobre Gertrude Stein e Alice B. Toklas — quer escrever um
ensaio sobre o caso das duas. Na outra página te mando um poema que escrevi há
alguns meses. O título é uma tampinha de caixa de sal — reproduzo o desenho
porque, no momento, não tenho nenhuma das referidas caixas à mão.
Te beijo
Te espero em carta.
Caio
(here comes the sun little darling it’s ali right now)


Estavam ali as portas
Janelas e varandas.
Estavam ali
Na fronteira do olhar
Onde o de dentro encontra
Justamente
Com o de fora.
Nesse ponto exato
Elas estavam:
Bastava um gesto.
Mas o meu estar parado
Era maior que eu.
Estar parado
Estar vivo:
A mesma incompreensão
E medo
Entre mim
E aquele estar das coisas.
Estar ali
Como nunca ter chegado.
Estar ali
Por estar ali
E além de mim
O que eu não ousava.
Ah
Relembro a amplidão dessas varandas intocadas
Os pequenos raios de luz
Nos vidros coloridos das janelas.
Revejo a dura consistência da porta
Cerrando seu segredo.
E me retomo
Ali
No imóvel do gesto que não fiz.
Como se pudesse
Agora
Escancarar portas e janelas
Para sair nu pelas varandas
Desvairado e nu
Profeta, louco, infante,
Sair para o vento
O sol, as tempestades, as neves,
As quedas de estrelas e Bastilhas,
O cheiro de jasmins
Entontecendo os quintais.
(pudesse retomar manhãs, amigo,
manhãs perdidas como tudo
que não fui)
Mas continuo
Ali.
Aqueles espaços
Permanecem mortos dentro de mim.
Como um corpo que se ama
E não se toca.
Londres 4.2.74

(Fiz depois duma bad lisérgica e dum papo muito duro com Serginho. Você gosta?)


Dia seguinte:
Saindo da prisão
Fui ao dentista, depois encontrei com Homero e Fê para roubar umas coisinhas.
Tudo bem. Os lugares de sempre. Biba, Pin Import, Kensington Market. Eu tava
cansado, queria vir embora, Homero quis ir ainda a uma livraria. Fomos. Aí fiquei
alucinado por uma biografia de Virginia Woolf, com fotos belíssimas, dois volumes.
Apanhei um, Homero outro. Saímos. Dois caras nos vinos seguiram. Nos
apanharam na esquina. Dormimos na prisão. Fomos julgados hoje de manhã.
Resultado: 30 libras de multa que equivale a mais ou menos 500 contos. Temos três
semanas para pagar.
Na escola, ganho 20 libras por semana. Creio que poderei pagar. Mas é duro.
Ainda tenho outra conta do dentista de 10 libras.
Vou chegar no Brasil sem dinheiro nem pro táxi. Também não posso
recorrer a meus pais — ia ser um bode se eles soubessem.
Estou muito deprimido, muito cansado.
Ah, por favor — não fale disso a ninguém. E muito feio. Também não entra
numa de me mandar um dinheiro que você não tem. Pediria uma coisa só. Arranje
umas flores brancas e jogue no mar pra lemanjá, que é minha mãe. Peça por mim,
que ilumine meu caminho — que me tire desta maldita Londres que está acabando
comigo. Pode ser que ela atenda.
Te beijo outra vez.
Não se preocupe.


Porto Alegre 26.6.74

Vera:
recebi hoje sua carta. Continuo ruim, talvez um pouco melhor, pelo menos
tenho procurado sair, transar com as pessoas. Embora nada ou ninguém me
interesse. Estou também batendo uns papos com um psiquiatra, que é mais meu
amigo do que qualquer outra coisa, Ernesto Bono. E isso tá ajudando, eu acho.
Aos poucos saio do poço.
Mas, bem, não venha em julho. Imagino que você deva estar decepcionada.
Mas eu acho melhor que você não venha. O livro atrasou, depende de
financiamento do INL, isso significa burocracia, isso significa perda de tempo e —
resultado — o livro, na melhor hipótese, só ficará pronto em outubro. Ou no ano
que vem. Fora isso, eu não estou bem. Eu não ia poder transar bem com você
porque estou todo perdido, todo enrolado nos meus “adentros”, E não acredito
que você pudesse melhorar a situação. São coisas muito minhas, incomunicáveis.
Eu estou vazio, deprimido e amargo. Talvez eu vá pra Itaqui, passar uns dias na
casa de minha avó.
Estude, faça suas coisas, vá para Petrópolis, olhe as pessoas. Não fique
pensando em mim, não fique esperando nada de mim, não invente estórias. Eu
preciso ficar sozinho algum tempo e deixar que naturalmente tudo se tranqüilize
dentro de mim. Para então ver o que eu posso realmente dar a você ou a qualquer
outra pessoa. No momento não tenho mesmo nada. Só coisas escuras. Prefiro
guardar comigo.
Noite passada amarrei um bode pensando nos 26 anos que faço em
setembro. Você tem 18. Sabe que isso é terrivelmente importante? Sabe que o
tempo passa muito mais depressa do que a gente imagina? Sabe que se você não
fizer certas coisas agora depois vai ser muito tarde (pareço um personagem de
Katherine Mansfield num conto chamado O seu primeiro baile)? Pergunte isso à Maria
Augusta, veja como ela vai concordar, não é verdade, Maria Augusta? Portanto, não
se prenda a mim, não se limite, não pare de olhar para fora, para os outros. Daqui a
pouco vai ser muito tarde, eu sei que é assim porque eu sinto isso. Transe bastante,
o máximo que você puder. Fechar-se não está com nada, e as pessoas são sempre o
que de melhor existe.
Mando pro Henrique uma cópia de Harriet, que ele tinha pedido. Um beijo
do seu
Caio


Porto 9.7.74

Vera, recebi hoje tua carta e a de Maria Augusta. Li, reli, várias vezes e fiquei
indeciso entre responder hoje mesmo ou deixar passar uns dias. Hoje já é muito
tarde, a minha irmã está de aniversário, pintaram uns parentes e uns amigos meus
de tarde, também trabalhei muito corrigindo e tirando cópias dos originais que
preciso entregar ainda esta semana. Então estou um pouco cansado. Mas eu quero
tentar explicar umas coisas para você. É difícil, porque eu ando confuso e sem
entender muito bem as coisas. Mas quero tentar.
Sua mãe acertou em cheio num ponto, eu acho. É verdade que estou
morrendo de medo do amor que você sente por mim. Mas não é só isso. Também
ando com muito medo das pessoas todas. Eu sei disso. Londres deixou marcas
fundas. Também tenho um outro problema, sério. Objetivo. Externo. Eu estou
precisando “ganhar a vida” de alguma maneira. Eu parei de estudar. Eu não tenho
especialização nenhuma em nada (nem quero). Eu não voltaria à faculdade. Eu não
me submeteria a qualquer trabalho. E preciso. Minha mãe tem agüentado a barra, mas eles estão com mil problemas financeiros, e não é justo, no mínimo não é
justo. E eu não agüento mais cidade, você me entende? Além disso há a barra de
voltar. Eu mudei. Tenho saído e olhado e às vezes encontro algumas pessoas. Tudo
me parece muito ruim. As pessoas estão quase todas saindo ou entrando em
clínicas (é um fato, poderia enumerar nomes e casos, se você os conhecesse). Me
sinto perdido no mundo. Ou dentro de mim, seja. A perspectiva de fazer 26 anos
em setembro me assusta: de repente já estou no fim dos 20 e não tenho nada do
que as pessoas costumam ter nessa idade. Tenho planos, claro (todo mundo tem).
Mas objetivamente estou aqui sem nada à minha frente. O momento futuro é uma
incógnita absoluta. Eu não posso pensar “não, daqui a um ano eu vou pro campo
ou eu caso ou me formo ou vou à Europa”. Eu não sei. Fico esperando que pinte
uma coisa, naturalmente. E essa falta de ação me esmaga um pouco.
Claro que eu precisava de ajuda externa. Eu mandei dizer a você que estava
transando com o Bono. Não é verdade. Eu apenas pensei em transar com ele. E
talvez vá, amanhã, depois. No momento não há condições. Minha mãe está sem
empregada porque não tem dinheiro para pagar uma. Então tenho mesmo é que
me virar sozinho comigo mesmo. E me viro. Houve época, dois anos atrás, que eu
não conseguia sequer sair de casa. Agora pelo menos saio, sei lá, olho pra fora.
Converso com as pessoas. Procuro transar, procuro chegar perto, descurtir essa de
medo. Mas houve um espalha na cidade. As pessoas não se encontram mais, eu não
sei o que é.[...]
Não estou me drogando. Queimei fumo umas vezes, mas fiquei demais
paranóico, e parei. Não quero mais saber. Pelo menos agora. Até que eu volte a
sentir terra firme embaixo dos meus pés.
Hoje veio carta do Suplemento de Minas Gerais, para onde eu tinha mandado
um conto, dizendo que o conto não pode ser publicado a não ser que cortem ou
substituam as palavras merda e tesão. Tudo isso me desorienta. E muito lentamente
vou-me dando conta que estou realmente aqui — e que existe um externo diferente
do europeu. Mas são pequenas porradas que estonteiam, não é?
Em geral tenho conseguido me manter num estado de espírito mais ou
menos equilibrado. Acho que as maiores depressões já passaram. Andei chorando,
ou então apático, dormindo potes. Agora consegui pegar um certo fio, eu acho, e
pelo menos admitir que as coisas pareçam um pouco estagnadas até que eu volte a
me situar.
Há uma distância enorme entre eu e as pessoas. Eu estou chegando de
experiências que elas não tiveram — e não estou sabendo do que elas viveram
nesse tempo que fiquei fora. E difícil, difícil. Como começar tudo de novo. Até
reencontrar os pontos de contato, leva tempo. Entre eu e as pessoas. Entre eu e a
terra. Entre mim e eu.
Levo com calma. Como muito arroz, vegetais e tomo ban-chá. As vezes faço
algumas respirações e posturas iogues. Ajuda. Vou ao cinema. Fui ver Irmão Sol irmã
Lua ontem, é um filme muito lindo, me deixou muito bem.
Dia 28 chega um amigo meu de Londres, Homero. A gente se dava muito
bem lá. Forças recíprocas. Acho que vai ser legal encontrar alguém que esteja no
mesmo processo de reintegração (que pode degenerar em desintegração, e é isso
que mais me assusta). Vai me situar mais. Minha família é legal. Mas o diálogo com
eles vai somente até certo ponto. [. . .] Tudo isso dói. Mas eu sei que passa, que se
está sendo assim é porque deve ser assim, e virá outro ciclo, depois.
Para me dar força, escrevi no espelho do meu quarto: “Tá certo que o sonho
acabou, mas também não precisa virar pesadelo, não é?” E o que estou tentando
vivenciar. Certo, muitas ilusões dançaram — mas eu me recuso a descrer
absolutamente de tudo, eu faço força para manter algumas esperanças acesas, como
velas. Também não quero dramatizar e fazer dos problemas reais monstros
insolúveis, becos-sem-saída. Nada é muito terrível. Só viver, não é? A barra mesmo
é ter que estar vivo e ter que desdobrar, batalhar um jeito qualquer de ficar numa
boa. O meu tem sido olhar pra dentro, devagar, ter muito cuidado com cada
palavra, com cada movimento, com cada coisa que me ligue ao de fora. Até que os
dois ritmos naturalmente se encaixem outra vez e passem a fluir. Porque não estou
fluindo. Cada coisa é nova, é um choque que me balança.
Não sei se você entende. E isso e é muito mais ainda. Ou não é nada disso.
Falei com algumas pessoas que foram/voltaram, todas disseram a mesma coisa: que
reintegrar-se aqui é difícil, dói, a gente se sente confuso, sozinho, perdido. Eu sabia,
antes de vir. Eu, de certa forma, não estou nada surpreso. Era mais ou menos o que
eu esperava.
Não ia ser legal você vir agora porque eu não sei exatamente o que sinto por
você. Eu gosto de ficar ao seu lado, gosto quando você me escreve. Quer dizer, a
sensação geral é boa, é clara. Mas eu não sei se posso dizer que te amo, que gostaria
de ficar para sempre com você. Eu realmente não sei. E no momento — como
dizer? — de certa forma eu estou gostando de estar me sentindo assim,
desamparado. Porque é como um teste. Agora eu quero ver como eu me viro,
entende? E sozinho. Se você viesse você ia ficar servindo de ponte entre mim e a
realidade objetiva (como no Rio — as impressões vinham muito coadas através de
você). E não seria bom, porque eu podia sei lá, até mesmo ficar com raiva de você
e matar uma coisa que ainda nem cresceu direito. Não tenho pressa nenhuma. Nem
em relação a você nem em relação a nenhuma coisa. Eu gostaria que tudo crescesse
naturalmente.
Acho que consigo formular: assumir você está sendo tão difícil como
assumir essa vida a ser vivida que tá aí na minha frente.
E eu tenho mil bodes de sexo, não é? Eu preciso transar esses bodes todos.
Algumas vezes eu fiz muito mal para pessoas que me amaram. Não é paranóia não.
É verdade. Sou tão talvez neuroticamente individualista que, quando acontece de
alguém parecer aos meus olhos uma ameaça a essa individualidade, fico
imediatamente cheio de espinhos — e corto relacionamentos com a maior frieza, às
vezes firo, sou agressivo e tal. É preciso acabar com esse medo de ser tocado lá no
fundo. Ou é preciso que alguém me toque profundamente para acabar com isso.
Tenho medo de já ter perdido muito tempo. Tenho medo que seja cada vez mais
difícil. Tenho medo de endurecer, de me fechar, de me encarapaçar dentro duma
solidão-escudo.
Mas os dias andam bonitos e eu fico no jardim olhando a grama. Não vamos
entrar em pânico. Vamos nos escrevendo, vamos continuar nos aproximando por
esses caminhos difíceis, escuros ou complicados. Vamos?
Dê um grande beijo em Maria Augusta e agradeça por mim tudo que ela
escreveu. Foi uma força. Um beijo
Caio

II ... (Caio Fernando Abreu, in: Carta a Vera Antoun)

"Não fique pensando em mim, não fique esperando nada de mim, não invente estórias. Eu preciso ficar sozinho algum tempo e deixar que naturalmente tudo se tranqüilize dentro de mim. Para então ver o que eu posso realmente dar a você ou a qualquer outra pessoa. No momento não tenho mesmo nada. Só coisas escuras. Prefiro guardar comigo."

(Caio Fernando Abreu, in: Carta a Vera Antoun)

(Caio Fernando Abreu. Carta a Vera Antoun)

", eu te amei muito. Nunca disse, como você também não disse, mas acho que você soube. Pena que as grandes e as cucas confusas não saibam amar. Pena também que a gente se envergonhe de dizer, a gente não devia ter vergonha do que é bonito. Penso sempre que um dia a gente vai se encontrar de novo, e que então tudo vai ser mais claro, que não vai mais haver medo nem coisas falsas. Há uma porção de coisas minhas que você não sabe, e que precisaria saber para compreender todas as vezes que fugi de você e voltei e tornei a fugir. São coisas difíceis de serem contadas, mais difíceis talvez de serem compreendidas — se um dia a gente se encontrar de novo, em amor, eu direi delas, caso contrário não será preciso. Essas coisas não pedem resposta nem ressonância alguma em você: eu só queria que você soubesse do muito amor e ternura que eu tinha — e tenho — pra você. Acho que é bom a gente saber que existe desse jeito em alguém, como você existe em mim."

(Caio Fernando Abreu. Carta a Vera Antoun)

... sempre ...

Sempre resta nos olhos, escondido, a luz daquele amor, que brilha de saudade e que molha o tempo na eternidade.

(VFM)


olhar de homem III




"Por favor, não procure respostas onde não existe. Sou simplesmente um mistério - um livro fechado - intacto."

Fernanda Timbira

olhar de homem II

O silêncio não pode reinar o tempo inteiro. Se faltar argumentos sensíveis, grite que ame.

charles canela


Olhar de Homem

Por que somos vazios? Somos vazios porque não vivemos nunca o agora. Somos ansiosos, melodramáticos, pessimistas, arrogantes e estúpidos por vivermos num tempo não palpável. O que fizemos de errado ontem e o que faremos de bom amanhã nos impedem de fazer o que tem que ser feito agora. A sensação do impossível é o que nos faz mal.

==
charles canela

terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

Lembranças

Quando a gente gosta, a gente começa emprestando um livro, depois um casaco, um guarda-chuva, até que somos mais emprestados do que devolvidos. Gostar é não devolver, é se endividar de lembranças.
Fabrício Carpinejar


Segredos

" Diante das mais doces fragilidades
É que descobrimos quão fortes somos "

→Bruno de Paula


Que fofo!

... # ...

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Caio F Abreu - carta a Vera Antoun (73)

Portinho, 18 de um janeiro insuportavelmente quente do ano da graça de 73

Verinha:
minha doce e triste namorada/minha amada idolatrada salve, salve o nosso
amor; lembra? Li reli tresli milli tua carta. Sabe a vontade que eu tive? De tomar um
avião (ou mesmo as minhas asas) mandar tudo pros quintos e chegar de novo aí no
Leme subir os degraus da porta de entrada entrar no elevador apertar a campainha
te ver de novo e depois não sei. Mas não dá. Não dá mesmo. Eu também preciso te
ver senão vou morrer de amor insatisfeito de desencontro de saudade com sede
insaciada. Pra você ter uma idéia de como está minha vidoca: além de trabalhar à
tarde copidescando as reportagens infectas dos repórteres meio débeis mentais
daqui, estou como uma espécie de correspondente do Suplemento Literário de Minas
Gerais, entrevistando literatos daqui pra eles, mais uns free-lancers para a revista de
domingo da Zero Hora, mais escrevendo contos & contos e uma novelinha
escatológica ainda sem título e um romance parado Os girassóis do reino mais uma
pecinha infantil A comunidade do arco-íris onde tem uma boneca de pano que é você.
Além disso uma transa sensacional, não sei se você já ouviu falar em Ernesto Bono,
é um antipsiquiatra daqui, diretor-presidente da Macrobiótica e editor de uma
revista de contracultura chamada Orion, bom, ele está numa muito ruim, quase
falido, editando a revista com grana do próprio bolso e tá a fim de reunir um grupo
pra transar uma reformulação da revista, inclusive vai pro Rio amanhã ver se traz o
Maciel pra formar aqui uma espécie de centro de irradiação da contracultura pra
todo o Brasil (Bahia já era): e eu tô dando a maior força e vou descolar um tempo
pra entrar nessa, seja o que Deus quiser, mesmo que tenha que abdicar da minha
viagem pro outro lado do Atlântico. Mas a vontade é te convidar pra sair por aí
sem compromisso brincar de tobogã no arco-íris qualquer coisa assim: você topa?
Como é que tá a outra Vera Libra que te mandei? O Augusto irmão dela está
esperando que ela volte piradíssima (o apelido dela é Shell): ela é legal mas meio
careta, você deve ter sacado isso. Eu pediria que você fosse o mais legal possível
com ela, vê se dá um rolê na cuca dela, que tem condições pra agüentar qualquer
barra. O irmão dela é uma glória absoluta, a outra irmã, Marta, também. Uma coisa
meio louca que me ocorreu agora: como é totalmente impossível eu ir, quem sabe
você vinha com a Vera? Pensa nisso. Seria maravilhoso.
Amo, amo você todo esse tempo que a gente ficou perdido eu aqui no Sul
você aí no Centro eu não esqueci nunca: cansei de falar de você pra todo mundo
mas só a magra Jane te conheceu — lembra dela? Os outros que não te conhecem
não podem entender bem o porquê da minha ligação toda.
Fico contente com o piano, é uma das minhas frustrações não saber, vê se
entra logo nos barrocos ou pelo menos alguns noturnos de Chopin, eu só dou
força. Não funda a sua cuca, não pense demais (essa é a essência do pensamento do
Bono: não pensar, matar o ego, deixar vir à tona o ser). Entendo a tua análise, é
legal até certo ponto: a psicanálise tradicional apenas reforça o ego, que é a fonte de
todas as nossas angústias e temores, você com o tempo se torna terrivelmente
ególatra e não é nada disso: quero fluir: as coisas passando eu quero é passar com
elas: é mais do que isso aí. Por enquanto estou nessa batalha de abrir as cucas
alheias porque é impossível a minha fluir sozinha cercada de caretice. Consegui
coisas incríveis na minha própria casa. Minha mãe está maravilhosa, sacando mil
coisas, precisas ver os papos dela sobre poluição.
Seguinte: impossível mandar outro Inventário no momento: ele está esgotado:
existem apenas uns três volumes na livraria do Globo e eu não tenho $$$ para
comprar: mas devo receber no dia 10 então mando: ele talvez seja reeditado, pois
foi considerado leitura obrigatória para alunos de II ciclo. Vi Siboney ontem no
carnaval do Chacrinha. Ah: um livro ótimo sobre astrologia: A astroloia espacial e os
mistérios do futuro, de Joseph Goodavage, editora Pensamento.
Outra coisa: li nos jornais que Cortázar chega por esses dias no Rio. Daí
quem sabe você entrega a carta pessoalmente. Eu ando louco pra ler as Histórias de
cronópios e famas, o último dele, mas a dureza é total. Não dá nem pro fumo.
Acho que é só. Saudade saudade saudade saudade saudade saudade saudade
saudade. Amor amor amor amor amor amor amor amor amor amor. Todos os
beijos já existentes e não existentes todos os beijos os beijos dados mais os que
estão por dar. Não se perca. Não se esqueça. Viver bem é a melhor vingança.
Abrações pro Henrique. Lembranças pra tua mãe. Até.
Caio

Se você tiver interesse: a Civilização publicou um livro do Bono chamado É
a ciência uma nova religião?. E ótimo, muito aprofundado. Problema é que custa
uma nota. Vê se você consegue. Talvez algum conhecido tenha. Foi a partir
dele que eu comecei a ver sentir as coisas dum outro jeito.
Não sei desenhar, mas mando uma tentativa para a sua parede.

A Vera Antoun

Porto Alegre, 21 de março de 1972.

Verinha querida; escrevi para você e Henrique há muito tempo, em
dezembro. Não recebi nenhuma resposta, fiquei grilado com o silêncio, achando
que vocês não me queriam mais ou, na melhor das hipóteses que o correio havia
extraviado a minha carta. De qualquer jeito, era uma carta muito besta, falsa e
descolorida — eu estava atravessando uma fase muito ruim, me sentia exilado aqui
em Porto Alegre, vazio, sem nada pra dizer, a não ser que gostava imensamente de
vocês dois e não queria perdê-los. Talvez fosse um pedido de socorro
envergonhado. O socorro não veio, nem de vocês nem de ninguém, e fui obrigado
a me investigar e afundar em mim mesmo durante todo esse tempo, no começo
assim como quem cava um poço no deserto, depois, aos poucos, sentindo a areia
mais úmida, uns filetes d’água brotando lentamente, até agora, quando me sinto na
iminência de mergulhar o corpo nesse lago (talvez mar)-eu-os outros-cosmos, não
sei.
Eu ia te escrever qualquer dia, eu tinha — e tenho — um monte de coisas
pra te dizer, aquelas coisas que a gente cala quando está perto porque acha que as
vibrações do corpo bastam, ou por medo, não sei. Mas as coisas todas, externointerno,
eram muito difíceis e escuras, eu não tinha condições de mostrar ou dar
nada a ninguém que não fosse também escuro, compreende? Eu não queria, eu não
quero dar trevas, dor, medo, solidão — eu quero dar e ser luz, calor, amparo
(naquela cerimônia do chá em Sta. Teresa eu disse que queria ser ombro, você
disse que queria ser um ovo — será que um ovo pode se apoiar num ombro sem
quebrar?). A noite passada sonhei com você, e acordei hoje todo cheio de Verinha, você sentada comigo na frente do Conservatório, você na praia, você de
branco, você sorrindo e apertando os olhos, você de tantos jeitos que eu não tinha
outra solução senão sentar e escrever, embora com medo de não poder, de não
saber, quando a gente segura um vidro a gente tem medo de quebrá-lo. Sobre o
sonho não falo, talvez você achasse ridículo, mas era bonito.
Passei coisas difíceis. Fui demitido da Bloch e estive preso por porte de
drogas. Depois disso, voltei para cá e, durante algum tempo, mergulhei numa série
de viagens lisérgicas, de onde saí mais confuso do que nunca. Perdi minha
identidade, me desconheci. Passei um mês inteiro trancado no quarto, sentindo dor.
Não exatamente sentindo, mas sendo dor, sem falar com ninguém, sem pensar
nada, sem fazer nada. Passei janeiro na praia, com meus pais e meus irmãos, e em
fevereiro fomos pra Itaqui, uma cidadezinha na fronteira com a Argentinas onde
moram meus avós e tios. Acho que foi um pouco o ter voltado a encontrar a
paisagem da minha infância que me fez reencontrar também comigo mesmo, voltar
a abrir os olhos e não fugir mais. Toda aquela terra, as cadeiras na calçada e as
pessoas olhando o céu, sabendo da natureza, as ruazinhas estreitas, as casas velhas,
a ausência de televisão, de automóveis, de civilização — tudo isso faz parte do mais
fundo de mim, onde comecei, onde estou plantado. A vontade compulsiva de me
atordoar cedeu lugar à vontade de ser simples, ser terra (como Jorge de Lima:
“Nunca fui senão uma coisa híbrida/ metade céu, metade terra com a luz de Mira-
Celi dentro dos olhos”) e quando voltamos para Porto Alegre, eu já estava em
pleno processo de regeneração.
Estou fazendo análise, ontem tive a primeira sessão. Não é análise
tradicional: o paciente esticado no divã e o analista remexendo a cuca com seu
bisturi-freudiano-kleiniano-enferrujado. O método de um alemão Schultz (o papa
germânico da psicanálise), fundamentado na auto-hipnose, concentração,
relaxamento, meditação, auto-análise — baseado nas filosofias orientais, ioga, zenbudismo,
tao. O paciente aprende a dominar seu corpo e sua mente e, no último
estágio, alcança uma grande paz ou conhecimento (espécie de nirvana ou satori),
encontra dentro de si reservas de criatividade e pode orientar-se para qualquer
objetivo, auto-estimulando-se. Os exercícios de concentração, como a ioga, podem
levar a ter visões de cores, paisagens paradisíacas, essas coisas. E tudo isso acaba
com a ansiedade, a angústia, a insegurança. Vai ser bom e vou conseguir.
Depois das viagens, estive quase paranóico. Vi monstros horrendos nas
pessoas, me senti perseguido e encurralado, aí me tranquei em casa e, cada vez que
saía, era um suplício — voltavam as ondas do sunshine e eu achava que as pessoas
iam me morder, rir de mim, um inferno. Quando melhorei um pouco, tentei sair e
procurar alguns amigos, mas não consegui nenhuma integração com eles. Fiquei
surpreendido com o grau de vampirização das pessoas: todas elas preocupadíssimas
em falar, falar, falar, extrair opiniões, orientações, dicas, dizer coisas inteligentinhas,
mostrarem que não são caretas, que não têm medo, que não sentem dor. Cada
contato meu com alguma pessoa representava uma perda enorme de energia vital:
eu saía esgotado, confuso, com dor de cabeça e, principalmente, com dor por não
poder fazer nada pelo desespero alheio. A minha própria miséria aumentava. Foi aí
que a solidão deixou de ser involuntária para se transformar em escolha. E foi bom,
está sendo bom. Passo o dia lendo, ouvindo música, vendo velhos filmes na
televisão, de vez em quando vou ao cinema ou saio para passear na beira do rio que
passa atrás do edifício. Fico lá sentado numa pedra, fumando e pensando nas
pessoas que perdi, senão em afeto, pelo menos em proximidade física. De vez em
quando choro, é bom chorar, eu não tenho vergonha, mas em todos os momentos
existe a certeza de ter feito uma escolha acertada, de estar caminhando em direção à
luz. Não nego nada do que fiz, também não tenho arrependimentos ou mágoas: eu
não poderia ter agido de outra maneira — mesmo em relação a você — levando
em conta o quanto eu estava confuso naquela época. Também já não tenho aquelas
queixas infantis, na base do “tudo dá errado pra mim”, ou autopunições como “eu
sou uma besta, faço tudo errado”. Nada é errado, quando o erro faz parte de uma
procura ou de um processo de conhecimento. Gosto de olhar as pedras e os
desenhos do vento na superficie da água, gosto de sentir as modificações da luz
quando o sol está desaparecendo do outro lado do rio, gosto de sentir o dia se
transformando em noite e em dia outra vez, gosto de olhar as crianças brincando
no corredor de entrada e das palmeiras que existem no meio da minha rua — gosto
de pensar que vou sempre ter olhos para gostar dessas coisas, e por mais sozinho
ou triste que eu esteja vou ter sempre esse olhar sobre as coisas. Não sei muito,
também não tenho muito, também não quero muito, mas estou aprendendo a
respirar o ar das montanhas.
Verinha, eu te amei muito. Nunca disse, como você também não disse, mas
acho que você soube. Pena que as grandes e as cucas confusas não saibam amar.
Pena também que a gente se envergonhe de dizer, a gente não devia ter vergonha
do que é bonito. Penso sempre que um dia a gente vai se encontrar de novo, e que
então tudo vai ser mais claro, que não vai mais haver medo nem coisas falsas. Há
uma porção de coisas minhas que você não sabe, e que precisaria saber para
compreender todas as vezes que fugi de você e voltei e tornei a fugir. São coisas
difíceis de serem contadas, mais difíceis talvez de serem compreendidas — se um
dia a gente se encontrar de novo, em amor, eu direi delas, caso contrário não será
preciso. Essas coisas não pedem resposta nem ressonância alguma em você: eu só
queria que você soubesse do muito amor e ternura que eu tinha — e tenho — pra
você. Acho que é bom a gente saber que existe desse jeito em alguém, como você
existe em mim.
Queria saber de você e de Henrique, daqueles meninos que sem me
conhecerem me levaram para a sua casa e se mostraram para mim. Vocês foram as
melhores pessoas que encontrei no Rio, sabem disso? Por favor, me escrevam, é
importante, um bilhete, um postal, qualquer coisa, de preferência uma carta gorda
como uma cantora lírica, contando de tudo que vocês estão sendo e fazendo nessa
cidade louca, linda e longe. Eu tô aqui, lendo Charles Reich e zen-budismo,
sentindo saudade de vocês. Os taurinos e virginianos não devem se perder,
Verinha. Um grande beijo e saudade do
Caio


Porto Alegríssimo, 4 de janeiro de 1973

Verinha-maravilha, por onde anda você, tão distanciada, tão silenciosa? Em
que nova galáxia posso te encontrar outra vez, morena como uma princesa raptada
por beduínos no deserto? Vezenquando baixa uma saudade, quase sempre clara
como tem sido o ar verde-azulado deste verão, e fico sentindo falta do teu jeito
lento de chegar pisando em nuvens, sempre azul. As coisas andaram meio escuras
para mim, durante muito tempo, depois, o fim do inverno levou as amarguras e
tudo se renovou; estou pronto, outra vez, para te encontrar na areia do Leme ou
nas salas estragadas do conservatório, expressões corporais, alquimias. Hoje vesti
verde, em homenagem ao eclipse em Capricórnio, e de repente, não mais que, a
redação quase vazia, uma tarde quase quebrando de tão clara, você chegou na
minha saudade. Escrevo. Há muito para dizer, mas é uma pena que não se possa
mandar uma carta cheia de silêncio, que é música.
Siboney me trouxe, há alguns meses, o livro do Waly (muito ruim) e uma
carta tua, que não cheguei a ler porque ele não me entregou. Estou trabalhando
neste jornal há quase uma semana, ganhando relativamente bem e juntando $$$
para viajar, em junho, para a Europa. Há uns quinze dias ganhei um prêmio
literário do Instituto Estadual do Livro, com um conto chamado Visita, que me deu
dinheiro, alegria, segurança e mil lancezinhos. Estou TRI. Tenho disciplinado a
minha vidoca, semana que vem começo a fazer ioga, pela manhã, e logo depois
uma dieta macrobiótica. Logo após, um curso de conversação de francês e outro de
inglês — quero atravessar o Atlântico muito bem preparado, as asas dispostas a
qualquer vôo. Saio muito pouco, prefiro ficar em casa transando minhas coisas,
meu cachorro Tirésias, descendente de nobres chineses, uma enorme família de
periquitos azuis, verdes e brancos, estudando magia e astrologia (ando afiadíssimo
— você continua a estudar?). Porto Alegre é considerado um dos grandes centros magnéticos do mundo e, em conseqüência disso, há aqui diversas sociedades
esotéricas, como a FEEU (que tem uns livros sensacionais) e a GFU (onde faço
ioga, fundada por um peruano, com cursos de cosmobiologia e astrologia). Dizem
que será aqui o novo centro de irradiações para todo o Brasil, depois de passada a
epidemia baiana, e eu acredito... As pessoas andam lindas, com as cucas ótimas,
profundíssimas.
Andei viajando muito (fiz 4 viagens em dois meses), nas últimas consegui a
INTEGRAÇÃ0, sem nenhum mau momento, sou muito sujeito a bads. De outra
vez vi Deus, era um menino que me dizia para não perder a infância, que a infância
era Deus. De outra foi a Capela Sistina inteira nas nuvens. Morreram vários amigos
meus nesse fim de ano, doenças, loucuras, desastres, foi duro ter a morte tão perto,
mas eu soube desdobrar a desantenação inicial para curtir o que eles deixaram de
bom. Estou muito velho, e cada vez mais criança. Aprontei um novo livro de
contos, chamado O ovo apunhalado, que está participando de um concurso literário
em Brasília. Mesmo que o prêmio não saia, já arranjei um editor por aqui, e é
provável que até o fim deste ano você me receba em livro pela vez terceira.
Aprendi a gostar de viver e ser feliz. Depois dessa viagem sei que há um tempo
claro e calmo à minha espera, a casa no campo, os livros e discos, os amigos do
peito e nada mais. Só que as coisas têm a hora certa de chegar, eu sei que você sabe,
e por estranho que pareça preciso ainda ser um pouco machucado pela sifilização,
para que o vôo seja mais seguro, depois, e sem volta. Você sabe também que quem
sobe neste avião não consegue mais voltar à terra, mas só chegarão ao destino os
que não tiverem medo. Onde anda você, menina que me ensinou tanta coisa nova?
Antes de viajar pretendo dar uma volta pelo Brasil, rever as não muitas mas
muito intensas pessoas que fui deixando nos lugares por onde andou minha
magreza: S. Paulo, Campinas, Florianópolis, Rio, Cabo Frio, Belo Horizonte. Então
verei você e Henrique. Mas até lá, por favor, escreve contando de você, de tudo, de todos. Não quero nunca me perder de você, nem preciso dizer isso porque você
sabe que um Virgem e um Touro não se perdem mesmo — é astralmente
impossível. Portanto, mesmo que você cometa a vileza de me deixar sem resposta,
num outro de repente a gente se encontra numa esquina, numa praia, num outro
planeta, no meio duma festa ou duma fossa, no meio dum encontro a gente se
encontra, tenho certeza.
Vou ver se acho no jardim lá de casa um amor-perfeito para mandar junto
com a carta. Dê um grande abraço em Henrique, em todos os seus irmãos e
naquela mãe maravilhosa que vocês têm.
Sempre seu
Caio

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